sábado, 20 de novembro de 2010

Personagens do Mundo Corporativo: O Zé Ruela

No mundo corporativo existem muitas figurinhas carimbadas, e talvez a mais comum delas seja o “Zé Ruela”.

Quem nunca ouviu falar assim: “aquele cara de vendas é um Zé Ruela!”, “… e daí vem um Zé Ruela e mata todo o processo…”, “o cara que foi  contratado é um Zé Ruela”. Afinal de contas, quem é esse tal personagem  tão comentado nas rodinhas de funcionários?

Homônimos a parte, geralmente o tal Zé Ruela é um indivíduo sem atitude, com baixa capacidade de resolução de problemas, avesso ao  envolvimento com tarefas que exijam responsabilidade; descompromissado  ao extremo, faz parte do coro dos descontentes e dificilmente adota uma  postura proativa, preferindo deixar como está para ver como é que fica.

Resumindo: é alguém ordinário, sem importância, que está ali só por  estar e mais atrapalha do que ajuda.

Se o funcionamento de uma empresa pode ser comparado a um motor e se as pessoas forem as engrenagens, o Zé Ruela é a engrenagem na qual  faltam dentes. Não dá para contar com ele, porque foge do trabalho tal  como os vampiros do alho (se bem dizem que o alho retarda o  envelhecimento, e histórias de vampiros são mofadas de tão velhinhas).

Ficar um pouco a mais na empresa depois do expediente? Nunca! O Zé Ruela é o primeiro a arranjar compromissos fajutos para não poder  esticar o horário. Treinamentos no final de semana, mesmo que sejam esporádicos? Nem pensar! O Zé Ruela acha que ele é a única pessoa que  tem “outras coisas para fazer” aos sábados e domingos; o restante do  pessoal que se dane. Ajudar a organizar o ambiente de trabalho (sala/departamento)? De jeito nenhum, pois o Zé Ruela entende que  ambiente de trabalho é apenas o seu “quadrado”, e vive como se estivesse em uma ilha, sem se preocupar com o que acontece na baia ao lado. Nunca critique um Zé Ruela, mesmo em uma conversa particular, tête-à-tête,  pois ele é incapaz de enxergar os próprios erros e certamente vai sair  comentando pelos corredores que está sendo perseguido, que a coisa é pessoal, e por aí vai.

Naquelas conversas atravessadas que geram bate-bocas e discussões, pode ter certeza de que tudo surgiu por causa de um Zé Ruela que não  tinha o que fazer e resolveu ocupar-se com a vida alheia. Zé Ruela que é Zé Ruela gosta de ver o circo pegar fogo, e passa adiante informações  não confirmadas (da temida RP – Rádio Peão) e fica atrás da moita só  assistindo de camarote.

O Zé Ruela não costuma ser convidado para nada, e quando o é, sempre reclama de tudo: da comida, da bebida, dos prêmios, do horário. É  impossível agradá-lo, mesmo fazendo o que ele quer e o que pede.

Ah, o chefe advertiu o Zé Ruela em virtude de alguma atitude imprópria ou falha em procedimentos? Com certeza ele vai se defender  mais ou menos assim: “eu fiz porque aqui todo mundo faz”, ou talvez “a  empresa devia se preocupar com que faz tal coisa e tal coisa”, ou ainda  “é, mas o fulano fez isso, isso e isso, e ninguém falou nada para ele”.

Costuma achar que é o bode expiatório da empresa sem, no entanto,  explicar por qual motivo. Assim, figuras tão insignificantes conseguem  tornar-se o centro das atenções de uma hora para outra, e não porque  cresceram em eficácia, mas porque suas burradas ficaram ainda mais  aparentes e destoaram significativamente dos demais colegas de trabalho.

O Zé Ruela sossegadamente tira o pão da boca de quem trabalha direito, e nem fica com remorso. Age como se só a sua barriga roncasse  de fome, como se fosse o único que sente frio por falta de agasalho e  pensa sinceramente que a empresa deve bancar seus caprichos porque, já  que foi selecionado para trabalhar ali, provavelmente deve ser o melhor  profissional do mercado, um verdadeiro achado. Os headhunters das  grandes corporações estavam dormindo no ponto e nem leram o currículo do sujeito.Ainda bem!

Nas empresas onde existe de fato a cooperação e o trabalho em equipe, todos têm consciência das necessidades uns dos outros e dividem tarefas sem maiores problemas: não há incômodo em trocar o toner da impressora, ninguém fica estressado por ter que ir ao almoxarifado pegar um pacote  de papéis para a impressora e tampouco se for para fazer café para a  turma – ou simplesmente pegar a garrafa na copa. Em compensação, nos  locais onde o “zérruelismo” é prática corrente, será praxe sortear quem  fará cada coisa porque muitos querem usufruir, porém pouquíssimos têm  boa vontade; quando o azarado do Zé Ruela é incumbido de alguma tarefa,  fica de cara feia, sai chutando cadeiras e portas, faz tudo com má  vontade (quando faz), reclama o tempo todo e ameaça superiores com  pedidos de demissão, entre outras atitudes impensadas e imbecis.

E quando o infeliz perde o emprego, então? A culpa é da chefia, do RH, da diretoria, do sindicato, do Presidente da República, do Conselho  de Segurança da ONU… menos dele, que sempre é o injustiçado da história. Coitadinho do Zé Ruela, esse bichinho tão inofensivo!

Mas por que o Zé Ruela ainda existe? Simples: é porque algumas características dele são culturais, estão arraigadas e surgem em seu  processo de formação. Elas vêm das primeiras lições sobre cidadania e  comportamento. O Zé Ruela é moldado ainda pequenino, quando ainda está  “verde”. Você certamente já ouviu aquela frase “pau que nasce torto…”?

Pois é, acredito que ninguém nasce torto, mas pode vir a crescer torto  por causa do terreno em que foi plantado. Salvo algumas raríssimas  exceções, pessoas sem berço – isto é, bom caráter, disciplina, ética,  civilidade, respeito, hombridade e afins – gerarão uma crescente legião  de Zés Ruelas que fatalmente ocuparão os mais variados postos de  trabalho e as mais diversas ocupações. Se bem que falar em “ocupações”  nesse caso é mera licença poética, já que o Zé Ruela é um desocupado  contumaz, desconectado da realidade. Em outras palavras, é um peso  morto.

O Zé Ruela tem necessidade de atenção e faz de tudo para consegui-la. Um exemplo: há alguns anos conheci um rapaz que fazia questão de dar  prejuízo na execução de suas tarefas, somente para mostrar ao supervisor de produção que ele ainda estava por ali: era prevaricador, fanfarrão,  arruaceiro e arrogante; um profissional experiente, porém sem nenhum  escrúpulo. E sabem o que era pior nisso tudo? O cara conseguiu um cargo  de liderança! Uma catástrofe, sem sombra de dúvida. Na época surgiu burburinho  incessante: quem era mais Zé Ruela, o dito cujo ou quem o promoveu? Que motivos havia para beneficiar alguém com tais (des)qualificações?

Hoje meditando sobre os fatos da época, consigo visualizar uma única explicação: o Zé Ruela era bajulador e o Zé Ruela-mor (leia-se, o  superior dele) padecia de um mal chamado “estrelismo”: ele gostava de  ser paparicado e de saber que tinha alguém na empresa como fiel seguidor e “cão de guarda”.

Juntou-se ali a fome com a vontade de comer e deu no que deu. Muita gente boa, inconformada com o absurdo, simplesmente resolveu ir cantar  em outra freguesia, abandonando aquele navio fantasma infestado de  ratos. Perda para aquela empresa, que resolveu apostar em certas  soluções organizacionais de (duvidoso) baixo custo operacional e  simplesmente naufragou, sendo comprada por seu principal concorrente.

O Zé Ruela é um cancro corporativo, responsável por boa parte das dores de cabeças dos gestores. Como a tendência desse corpo estranho é  alastrar-se e contaminar estruturas adjacentes, ele acaba arregimentando simpatizantes por onde passa; alguém que já não andava muito satisfeito com a própria situação e acaba se deixando influenciar por um Zé Ruela, torna-se tão ou até mais impertinente do que o original. Vive como o  piolho: andando pela cabeça dos outros.

Se você percebeu que às vezes sente vontade de praticar quaisquer desses atos, tome cuidado! A “zérruelice” é uma doença grave que  fatalmente vai custar seu emprego e também pode acabar com sua carreira e futuras aspirações profissionais/pessoais/sociais, já que ninguém vai  querer mais um chupim barulhento para sustentar.

 
Autor: Denilson Lima é formado em Gestão de Recursos Humanos e trabalha no setor automobilístico
 

 
Fonte:ogerente.com.br



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